11
Mai

Raridade (e uma vindicação da futilidade, em dois tempos)

E não é que apareceu um template bacaninha? Quem diria. Mudei correndo.

* * *

Eu ia escrever um texto explicando por que a futilidade é 1) irrespondível, e 2) muito humilde. Ia, mas meus maridos não me sustentam para que eu quebre as unhas digitando coisas enormes e, pior, meio filosóficas. De modo que vou ser rápida.

A futilidade é irrespondível porque é deliciosamente arbitrária. Digamos, por exemplo, que você tenha o mau gosto e a falta de tato de me convidar para ver um filme do Almodóvar, e eu, que no fundo até vou com a sua cara mas estou morrendo de preguiça de lhe explicar tudo o que Almodóvar tem de medíocre, canalha e filisteu, digo que não vou, porque não assisto filmes de diretores espanhóis feios e cheios de frieiras. Eu nem sei se ele tem mesmo um monte de frieiras, mas daquela cara se espera tudo, então pronto, digo isso mesmo: cheio de frieiras.

O que você pode responder? Que ele não é feio, nem tem frieiras? Mas ele é feio, e você também não sabe se ele tem frieiras ou não (e nem tem coragem de dizer que não, ele não tem frieira nenhuma). Que não há relação comprovada entre espanholidade, feiúra, frieiras e mau cinema? Mas eu acho que há. Na verdade nem acho: sei que há. E sei porque sei. Você não tem resposta, e eu sinceramente nem preciso me justificar: não preciso ter nenhum motivo racional ou válido para sustentar a minha idéia geral dos diretores espanhóis, feios e cheios de frieiras. Acho isso porque acho, e ponto final. Vá ao cinema sozinho.

E a futilidade é muito humilde porque ela faz com que qualquer um se sinta melhor do que o fútil. O fútil se expõe às pedradas da indignação, do mesmo modo como um santo se expõe a levar pedrada e ser massacrado, baleado e torturado por incréus. Diante da futilidade, qualquer motivo, mesmo um bem idiota, parece excelso, invulgar, grandioso. De novo ao Almodóvar: é tão idiota não gostar dele porque é feio e cheio de frieiras que uma razão igualmente estúpida para gostar dele - digamos, a de que ele “resgata a marca do feminino” - passa imediatamente a parecer profunda, pensada, genial. Em comparação com o fútil, qualquer palhaço pomposo e metido se torna digno de atenção, e consegue diafarçar nessa grandiloqüência a sua própria futilidade. Porque gostar do resgate da marca do feminino, convenhamos, é gostar de quê afinal? É preciso muita humildade, muita abnegação da parte do fútil para legitimar tanto a banalidade geral.

Eu teria mais a dizer, mas o chocolate quente que eu fiz para enfrentar esses quinze graus vai acabar esfriando, e não tinha um poeta fumante e chato dizendo que não há mais metafísica que chocolates? Eu esquento o meu, e já sou grandinha, e com licença, fiquem bem, etc.

01
Mai

Itaipu?

Eu quero uma escrava paraguaia. Uma não, duas. Duas velhas, porque mocinhas e el embrujo de sus canciones, perto dos meus homens, jamais. A primeira velha eu porei na lida doméstica; a segunda, enfeitando a sala (quem sabe segurando uns charutos). A primeira chamarei de Carmela, porque tenho muita vontade de irritar meus vizinhos gritando “Ô Carméééééla!” o dia inteiro. A segunda chamarei de Ypacaraí, porque a quero plácida e silenciosa como uma lagoa.

Jodinélson Júnior adverte que não devo deixar dinheiro nas mãos delas. Nunca, nem um centavo. Diz o capetinha que a visão da grana desperta os anseios de liberdade.

01
Mai

A quick one

Se a arte de escrever bem lotasse estádios e vendesse discos, eu seria uma groupie do Lorde Ass. Bom, talvez não: há maridos, maridos. Mas teria uma foto dele como papel de parede aqui no Windows, digamos, e saberia a discografia de cor. Isto para dizer que a citação dele me desvanece e me amolece - e eu só não digo isto lá porque os wundercomments estão de folga.

No mais, queridos, vocês estão me pondo para trabalhar. O que é mau. Sou adepta da vagabundagem física: inspeção de tetos, gritos com empregadas, dormir até as duas, etc. Trabalhar é brega, faz mal à pele e dá sono.

26
Abr

O que se vira na virada?

Não vai haver filósofos na virada cultural. Imaginem, as pessoas virando e um sujeito fedido, caspento, dentes amarelos e mau-hálito puxando você pela manga para falar da fenomenologia do espírito, ou, se afrancesado, sobre multi-refrações no espaço-tempo não euclidiano do capitalismo. Sem saída, você dá-lhe um safanão, só para ouvi-lo sair gritando: “Filosofia é cultura, hein!”. Não vira.

Até porque filosofia, literatura, música sossegada não é cultura. Cultura, todo mundo sabe, é mexer a bundinha pretextando profundidades. (Mexer a bundinha no raso, como eu mexo, é mera putaria.) De sorte que a virada tem muito samba, muito Robert Smith, ups, Gal Costa, muito filme chato, muita conversinha, muita chupada no carro, muita camisinha usada, muita gente andando para lá e para cá se sentindo no próprio tobogã das musas. E mexendo a bundinha.

Meus maridos não me deixam ser culta: não me dão dinheiro nem as chaves dos carros, e não me deixam mexer a bundinha em público. O máximo que eu arranco deles são edições duas semanas atrasadas da Veja. Virada, dizem eles, é só lá em casa.

* * *

O blogue do Martelada me leu e me gostou (com modos). De lá veio mais gente que idem, e me assustei. Não estou acostumada a ter muita gente concordando comigo; nem eu mesma concordo muito. Enfim. Meu daimónion, que batizei de Jodinélson Júnior, diz que eu devia aproveitar a chance e passar o chapéu; quando lhe perguntei cadê a dignidade, ele respondeu: ficou com o padre. Lê jornais, o Jodi Jr.

12
Mar

Bão…

Blogar, a gente blogamos. Mas não é assunto sério. É como colecionar fusca: uma coisa que se faz.

Agora, imaginem ler textos sobre “coleção responsável de fuscas”, ou “como ser um fusqueiro de sucesso”; ou entrar em polêmica com mecânicos para saber quem é mais relevante na fuscosfera.

Quem agüenta? Não dá nem para rir.

28
Jan

Para conhecer vinho, há que beber

Fico à toa, e meu daimónion (bem mais bonitinho que o do Sócrates) me sopra coisas horrendas cabecinha de vento adentro.

A questão de hoje é: há tanta diferença assim entre um enólogo e dois pretinhos equilibrando bolas num semáforo?

Pensem bem - ele e eles não esperam da gente (além do dinheiro) um tipo muito parecido de admiração?

18
Jan

O mundo? Ora, o mundo

É claro que eu me importo com a realidade, com o mundo, com o Brasil. De mês em mês, mais ou menos, chego à janela e dou uma espiadinha. Nunca muda nada, mas - não é o que tanto nos cobram? - faço a minha parte. De vez em quando dou tchauzinho para algum índio, por exemplo. Grito: “Força, querido! Não desista!”, ou algo assim. Sou positiva.

Eu tenho tempo de sobra, é verdade.

28
Dez

Há relação entre ignorância crassa e unhas bem feitas?

Quem é Benazir Bhutto, meu Deus? Sempre confundi o Paquistão com a Patagônia.
A teoria do caos em política - Mandelbrot em foreign affairs - é a seguinte: morre uma ex-premiê na Paquistônia, e em seguida um morro carioca fica em polvorosa. Tudo interligado, exceto a minha volúvel atenção.
Ai, ai.
22
Dez

Upa, neguinha, sobe aqui!

Vejam vocês, há quanto tempo não escrevo aqui: de agosto para cá, a jornalista pelada teve tempo de tirar a roupa (a prática ajuda) e de escrever um livro em velocidade… ah, me ajudem, queridos, quem escrevia rápido para viver? Dostoiévski? Balzac? Dottie Parker? Enfim, quem não corre, voa.

Eu cázinha me arrasto. E ser teúda & manteúda em padrões sub-Velloso passa a valer a pena só agora, na época do décimo-terceiro. Que é quando meu marido mais velho me banca certas regalias - “regalias” nos modestíssimos standards meus, evidemã - como esta de me botar um temporário Speedy aqui na quitinete.

De sorte que esta volta tem ares de poder ser mais duradoura. Se minha vontade, meu ânimo, minha fortaleza durarem.

05
Ago

Jornalista pelada?

Moralmente, eu me encaixo entre o metrô e a Anac. Quer dizer, do lado mais cínico e improdutivo do país. Deus sabe portanto que não mereço, mas, como a moda é revendicar, revendico meu direito de me abismar um tantinho.

Antes, deixa eu dizer que uma das coisas que me amolaram ultimamente foi ver que os jornais, as rádios, os blogues, os ascensoristas e os garis, todo mundo, to-do mun-do!, quando ia falar na teúda do Renan dizia: “a jornalista Mônica Veloso”. Sempre, antes do nome da mulher, vinha (e continua vindo, né?) “a jornalista”.

Chata essa insistência. Cheguei a ficar com medo de associar automaticamente o nome dela à profissão. Se tivesse que falar da Sônia Racy, diria: “a jornalista Monica Veloso Sônia Racy disse que…” E se ela fosse, para não fugir do mundo burocrático, amanuense? Sei que não tem mais, agora é escrevente ou auxiliar de escritório, mas adoro a palavra: amanuense. Imaginem jornais, revistas, blogues: “A amanuense Mônica Veloso…”.

Agora meu marido mais velho veio me falar que ela, como outras teúdas de disfarce menos nobre, “estuda proposta” da Playboy. Além de jornalista, agora pelada. Será que a imprensa vai mudar? Vão começar a escrever “a jornalista pelada Monica Veloso afirmou…”?

Aliás, que delícia “estudar proposta” da Playboy. “Propomos fotografá-la pelada, madame, por xcentos mil reais”, é tudo o que posso imaginar de objetivamente proponível; e ela lá, estudando a frase. “O que exatamente querem dizer com ‘fotografar’? E com ‘madame’?”, etc.

Se fosse eu o Renan, não deixava. Primeiro que baiano se ofende muito quando vêem as coisas de mulher dele. Segundo, já escancararam os carros que os políticos dirigem, as casas onde moram, os uísques que bebem, os bancos onde moqueiam: vão agora arreganhar quem comem? Isto ainda vira baderna. É com isso que eu me abismo.

E eu aqui, sem nem um vereadorzinho mixuruca. Que digo, vereador? Nem um membro de um Conseg. A inveja vai me matar qualquer década dessas.