Arquivo para Fevereiro, 2007

25
Fev
07

Oi, carne

Juro que queimei uma boa meia-dúzia de neurônios pensando em falar alguma coisa sobre o Carnaval – que eu passei prostrada sobre coisas macias alternadas: minha cama, meu sofá, almofadões coloridos, com o dedo tendo carta branca para se mexer pelo controle remoto. Numa dessas mexidas do dedo (mão direita, apolítica, destra de nascença) entre torpores – o tempora, o torpores – vi uma gostosona, madrinha de bateria de escola vencedora, declarar: “Importante foi o trabalho da comunidade”.

A-hã. Mas então: eu não digo nada sobre Carnaval porque nunca dei adeus à carne, ou às carnes, e aí se incluem todas. Comigo é sexo e bife permanentemente; nada contra adeuses alheios, que é isso?, mas mas mas… já nem sei do que estou falando.

Ah, bem: vi um Woody Allen, que casa bem com meu pobre momismo. Small time crooks,  Woody Allen de terceira – bons diálogos, mas tudo muito, como direi?, formato TV – e ainda assim melhor do que quase tudo o que anda por aí.

E li, desorganizada, descriteriosa, A assustadora história da medicina, Richard Gordon, mal traduzido pela senhora Aulyde Soares Rodrigue. O cara é engraçado, tem a fobia dos católicos contra Freud (não sei se ele é católico), e me deixou a convicção de que só serei operada por tumor ou apendicite, se mantiver a graça da escolha consciente.

Isto até agora, caros.

Sim, também não fui trabalhar. Trabalhar é brega.

13
Fev
07

Aquecimento global

A blogosfera (aliás, por que blogosfera? Por que não bloquadrada?) tem um monte de gente preocupada com o aquecimento global. Diz, ou suspeita, sei lá, essa gente toda que a Terra não será a mesma em 20 ou 30 anos. Alguns especulam uma conspiração envolvendo a Coca-Cola. Bem, eu também não serei a mesma em 20 ou 30 anos, e, se não conspiro muito, inspiro pacas. Mas é isso: hoje todo mundo opina sobre tudo com a propriedade de uma Wikipedia. Até os habitantes das pólis, Heliópolis e Paraisópolis, estão mais letrados do que eu e sabem mais sobre o apavoro da quentura. Hoje mesmo: dois pivetes tentaram roubar minha bolsa. Ternamente, como mandava o Che, resisti. Um deles mostrou, junto com o revólver sob as calças, ser um bom leitor de blogs: Olha tia, se não der a porra da bolsa, a chapa vai esquentar. Dei. E pensei: oh, quanta consciência sócio-ambiental. Temos salvação, temos salvação.

12
Fev
07

Socially atheist

Paulo Francis disse que se tornou ateu filosofando num estribo de bonde. Entre os chacoalhões – bonde chacoalhava, né? – e os schifazfavoire do trocador portuga, o jovem Heilborn sopesava Santo Agostinho e Heidelberg, Calvino e Marx, e se convertia ao ateísmo. Sempre achei isso muito bonito. E muito coisa de homem. Eu, se num estribo de bonde – que é aberto, venta muito -, só daria atenção ao meu penteado, nunca a Deus.

Fiquei atéia em condições muito menos românticas. Foi em Ubatuba, vendo uns farofeiros. Eles estavam lá, barrigudos, com bermudas e biquínis e chinelos extravagantes, bebendo latinhas de cerveja, falando alto, com um ghetto blaster explodindo um forró e comendo macarrão frio em tupperwares. Uma menininha corria para lá e para cá com uma rodela de lingüiça na mão. Um rapaz tinha mechas loiras nos cabelos pretos e usava óculos escuros. Um deles se chamava Jodinélson. Inofensivos, só queriam tirar um barato, como se diz. Iriam pro céu, continuar por lá essa existência de cervejinhas, bermudões e macarrão frio em tupperwares, correndo com rodelas de lingüiça na mão. Iriam pro céu falar alto e ouvir forró no último volume com o Jodinélson. Iriam para o céu fazer cara feia e falar “ai, que saco de música”, “ê, anjada metida!”, “não tem nada mais novo aí não, ô?” quando o arcanjo Gabriel mandasse o coral celeste cantar o “Qui Habitat”. Iriam para o céu reclamar das togas brancas, querendo as deles decoradas com coqueiros, mulheres de biquíni e slogans do tipo “Depois de Salvador, só o céu”, ou “Apesar da marvada, eu sou bom”. Iriam para o céu porque são feios, burros e malcriados, mas puros de coração.

Foi aí que eu vi que esse negócio de céu não dá certo. E se o céu não dá certo, como Deus dará? Daí fiquei atéia. Muito mais simples que o Paulo Francis, muito mais efetiva, e muito mais cheia de razão. E me bronzeando, o que é melhor.

12
Fev
07

Poema expresso

Todo grotão
almeja o ramerrão

11
Fev
07

Ô dia que não acaba

Futebol para mim é como aquário. Parece que tem gente que fica olhando aquário, admirando aquário, vendo os peixes para lá, para cá… as bolhinhas, o escafandrista miniatura… Eu, se tivesse aquário, só saberia que meus peixes morreram quando começasse a feder. Aquário é como Carlos Drummond de Andrade, um tédio só. Acho que doravante vou chamar o Drummond de aquário. É isso.

Pois o futebol para mim é a mesma coisa. Mas agora mesmo, passando entediada os canais, vejo Rogério Ceni, goleiro do São Paulo, falando sem gaguejar a palavra “subterfúgio”. Sem gaguejar e parecendo saber o que quer dizer. Subterfúgio, imaginem. Aposto que também não erra “helicóptero” nem “panegírico”. Craque é craque. Né?

E ainda falam mal dos resultados do Enem. Pena que o cara é careca e narigudo. Careca e narigudo, só para efeito de subsistência.

11
Fev
07

Só mais este

 artzybasheff_judge27jan23.jpg

Boris Artzybasheff. Aqui.

11
Fev
07

Domingo de chuva

O rosal misterioso.

Um achado. Meu diretório favorito é este.

11
Fev
07

Petrus Christus

Madona na árvore seca.

Aqui. Vai lá, que é muito bom.

11
Fev
07

Às minhas amiguinhas que lêem poesia

Deixa eu explicar uma coisa. Eu sei que Drummond é grande, é imenso, é enorme. Eu, como todas as mocinhas – todas, todas, todas – abro a esmo a “Antologia poética” e arregalo os olhos quando leio “ó Carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode caminham numa estrada de pó e esperança”. Claro que eu fico boquiaberta. Claro que eu acho que é profundo, enigmático, anti-retórico, prenhe do sentimento do mundo e tudo o mais. Claro que eu me abismo toda.

Mas, à medida que vou percorrendo o livro e me boquiabrindo mais, e boiando feliz nessa profundidade aí, e me interessando pelos enigmas – “Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara?” – mesmo achando que uma dessas duas vírgulas podia sair… Oh, à medida que vou em frente, alguma coisa acontece, alguma coisa que eu não sei direito o que é – profunda, enigmática, anti-retórica – e eu durmo.

É isso, meninas. Drummond é grande, é imenso, é enorme, e me mata de tédio e de sono. Leio sobre “o tardo e rubro alexandrino decomposto” e balanço a cabeça fazendo “hum-hum”, aparentemente concordando mas na verdade engolindo um bocejo; sorrio com olhos vesgos (tenho que ler três vezes para entender) da “Eternalidade eternite eternaltivamente eternuávamos eternissíssimo”, fazendo cara de bêbada, e antes de chegar aos “oceanos de nada” eu é que já estou no Atlântico de Morfeu. Bem no fundo, onde é escuro e os ecos do sentimento do mundo, graças a Deus, não chegam.

Tudo bem, meninas: não liguem para mim. Continuem, continuem; eu vou ali ler Eliot e já volto. Kiss-kiss, have a simply super day.

10
Fev
07

Literatura ruim fede

Não sei você, mas eu quase sempre consigo dizer, só pela maneira como escreve, se um sujeito não toma banho. Há um cheiro ardido de suor e de morrinha que pega no texto e não sai mais. Camus, por exemplo: leia O estrangeiro e tente perceber os miasmas bucais. Ou Marcelo Mirisola, cujos colarinhos provavelmente vivem úmidos. Ou Beckett – sim, Beckett – que cheirava a Hipoglós. Ou Plínio Marcos, que cheirava a marmitex e laranja descascada.

Isso vale para mulheres também. Tenho certeza de que a Fernanda Young não depila as partes. E que as pontas dos seus dedos têm cheiro de mamão.