Daqui posso ver meus pés. (Eu não devia poder; já explico por quê.) Muito bem cuidados, lixadinhos, hidratados, as unhas pintadas de ameixa. Havia uma bicha no meu trabalho que adorava meus pés; dizia, essa bicha, que se tivesse pés como os meus seria uma rainha. Uma vez, numa festinha, pus meus dois pés nas bochechas dele. “Ai que macios”, ele suspirava, “ai que gostosos”. Mas gostava deles como gatos gostam de almofadas — não ficou de pau duro, não respirou mais forte, não lambeu nem beijou as solas. Era uma bicha.
Deus me deu bons pés. Estou orgulhosa deles, com um pouquinho de dó — daqui a pouco vão arroxear. Pendem muito retos, como reto está o resto do meu corpo. Com a exceção da cabeça, que está caída para a frente, inclinada à esquerda sobre o meu pescoço destroncado. Estou enforcada e morta, rodeada de espelhos num quarto de motel, e olho meus pés com orgulho. Uns quinze centímetros abaixo deles, no chão, estão as sandálias que eu usava. Lindos os meus pés em breve roxos.
Eu não me matei: não sou disso. Estas breves linhas nunca vão fazer com que você entenda quem e o que eu era, mas pode acreditar quando digo que eu não me mataria. Lutei bravamente antes que ele conseguisse me pendurar aqui. Tenho um olho roxo, uns hematomas feios nos braços e no rosto, e acho que me faltam uns três dentes: apanhei para valer. Diria que ele deu tudo de si, o que, aliás, ele sempre fazia, se adequadamente provocado. Pena que o tudo dele fosse pouco, muito pouco; e pena também que eu seja, ou que aliás eu fosse, do tipo que sempre deixa muito claro o quão mais esperava.
Metade do desprezo que eu tinha por ele era verdadeira, e a outra metade era pura farra. Às vezes eu me confundia, ora achava que não o desprezava nada, ora o achava abjeto por inteiro, mas no geral sabia separar direitinho o que ele tinha de bom e de mau. O mau era muito, do pouco dinheiro ao corpo ruim ao bafo estranho ao ressentimento e à vontade de falhar. O bom era pouco, mas esplêndido: os olhos selvagens, o medo nenhum de ir ao mais fundo da dor, o desespero de um cavalo cruelmente picado puxando uma charrete atolada. Nunca o amei, mas quantas e quantas vezes me esqueci de mim mesma no meio daquele tumulto! Isso quase vale a minha morte.
A corda áspera que machucou tanto o meu pescoço — o ruim de morrer é que a gente lembra do que custou em dor, em agonia — tinha outros fins. Surpreendente que o aro do lustre tenha agüentado o peso do meu corpo, eu que o achava meramente colado ao estuque: agora começo a pensar que estes lugares são bem construídos, ou que dei o azar de achar um que fosse. Não enxergo a cama que lembro desfeita; este meu cadáver ainda está sem as calcinhas sob o vestidinho fino e preto, é possível que um filete gosmento possa ser visto brilhar perto do meu joelho — nem tive tempo de me lavar. Será que os policiais vão rir? Eu mesma riria, se pudesse; mesmo morta, tenho vontade.
Também, comecei logo depois que ele acabou. Fica feio se eu disser que nunca gozei com ele? Tarde demais, já disse. Nesta última não tinha gozado de novo, mas isto não era mais problema: já tinha me conformado, com uns não se goza nunca, paciência, e felizmente há outros. Mas eu tinha me esquecido de que ele era só metade desprezível; comecei a desprezá-lo por inteiro, perguntei “já?”, e depois “só isso?”, e depois ainda comecei, com voz de quem comenta o preço do peixe, a contar o quanto um certo fulano resistia, o que fazia, e na minha vozinha mais fininha ainda deixei escapar que preferia estar com ele, com o fulano. Era mentira, mas não cem por cento mentira; preferia o fulano em vez dele, mas nem sempre, e naquela hora eu estava aborrecida e em dúvida, e só queria fazer a ele algum mal. Porque ele gozava sempre e eu nunca. No fundo nós não somos difíceis de entender, somos?
O soco me pegou de surpresa, confesso. Dizem que homem bater em mulher é covardia, e no geral eu concordo; mas há vezes em que não bater é covardia maior ainda. Que medo pode ele ter de dar um ou dois tabefes numa mulher, um chute, uns empurrões? Que é que há com ele que não é capaz de dar uma cabeçada, ou torcer o braço de uma mulher para trás e mandá-la calar a boca? Ele era assim, ele tinha esses medos, ele parecia achar que eu poderia ameaçá-lo nisso, além de em todas as outras coisas. Por isso eu o desprezava, por isso achava que aquele soco estava mais distante que a lua, por isso eu riria à idéia se não estivesse toda concentrada em humilhá-lo.
Mas veio o soco, eu tonteei, e a boca se encheu de sangue e de um gosto metálico — era o lábio cortado. Será que eu gritei? Veio um segundo soco que ele deu com a outra mão, este na minha têmpora, um trabalho coordenado: os homens passam a vida aprendendo a bater, batendo, como eles resolvem as coisas sempre assim, não é? Eu não tinha como reagir, e creio que nem reagi como se deveria: devo é ter me debatido, esperneado, e nisso eu o acertei em algum lugar, fiz alguma coisa feliz, porque ele caiu da cama e eu rolei pro outro lado. E então eu gritei, furiosa e inconformada, eu apanhando dele?!, logo dele?! Ele não tinha, ele não tem gabarito para bater em mim! Ele com suas mixarias, seu corpo feio, seu pinto pequeno com aquelas duas ou três gotinhas tristes como laranja passada, e que nem tinha força para me puxar e levantar a minha bunda dos lençóis, ele que nunca me mordia! Gritei isso e outras coisas até que a mão branca e rosada dele, aquela mão tão indecisa, me puxou pelos cabelos. Bati, levei, mordi, fui mordida, enfiei os dedos em algum lugar mole, talvez num quarto ao lado ouvissem a gritaria e começassem a nos invejar — e, se me perguntarem, eu diria: invejem mesmo, que até a desgraça, quando profunda e selvagem, é boa. Um segundo de lucidez no meio daquela luta e eu começaria a gargalhar, e me deixaria tomar pela maior das alegrias, e ficaria louca de vontade de fazer amor de novo, com ele, com outro, com alguém que pudesse me foder com a força que eu queria. Acabei quando ele conseguiu me acertar na nuca, desabei, sei que sangrei muito, e no chão fiquei.
Não sei o porquê da forca, que senso de ridículo ou de dramalhão ou que transporte de ódio. E se eu só puder ter certeza de que foi ódio, agradecerei, morrerei agradecida, irei aonde tiver de ir sabendo que um dia alguém se transtornou por mim a ponto disso. Mas a forca, por quê? Ele podia ter-me moído ali no chão mesmo; podia ter cavucado no meu ventre e espalhado minhas tripas em torno, como um índio, um lobisomem; podia quem sabe ter estuprado meus pedaços babando e gritando como um louco. Que sei eu? Sei que, se fosse despedaçada, entenderia; mas a forca, a idéia, pensar nisso, pendurar corda, me erguer, dar o laço e puxar meu corpo: o que é isto?
Agora o ouço entrando de volta no quarto, ele que devia estar mexendo no meu carro. Vejo-o com um balde cheio de urina; não sinto o cheiro, estou morta, e aquilo não é urina, embora se pareça, e embora até rime. Não tenho mais tempo de contar, mas por favor registrem: houve um tempo em que me meti a escrever poesia. Fiz sonetos rimados e com sílabas contadas; infelizmente, não trago nenhum de cor. Também não os pus por escrito. Que poeta o mundo perdeu.
Não sinto o contato do líquido com o meu corpo, não ouço o splash, mas vejo-o estranhamente espalhar o líquido em tudo, e até em si mesmo. O próximo passo é vê-lo fuçar em minha bolsa, sabendo o porquê — eu fumo, ele não, lá está o nosso funeral viking, espero meio enlouquecida a qualquer momento uma ária romper em algum lugar, e é por isso, por causa da ária, que me lembro: Tristão e Isolda.
Eu estou morta, mas à faísca e à primeira labareda do meu isqueiro — Tristão e Isolda — meu coração morto ainda se inunda de ternura: eu entendo, e então mergulho, apaixonada, no clarão.