Paulo Francis disse que se tornou ateu filosofando num estribo de bonde. Entre os chacoalhões – bonde chacoalhava, né? – e os schifazfavoire do trocador portuga, o jovem Heilborn sopesava Santo Agostinho e Heidelberg, Calvino e Marx, e se convertia ao ateísmo. Sempre achei isso muito bonito. E muito coisa de homem. Eu, se num estribo de bonde – que é aberto, venta muito -, só daria atenção ao meu penteado, nunca a Deus.
Fiquei atéia em condições muito menos românticas. Foi em Ubatuba, vendo uns farofeiros. Eles estavam lá, barrigudos, com bermudas e biquínis e chinelos extravagantes, bebendo latinhas de cerveja, falando alto, com um ghetto blaster explodindo um forró e comendo macarrão frio em tupperwares. Uma menininha corria para lá e para cá com uma rodela de lingüiça na mão. Um rapaz tinha mechas loiras nos cabelos pretos e usava óculos escuros. Um deles se chamava Jodinélson. Inofensivos, só queriam tirar um barato, como se diz. Iriam pro céu, continuar por lá essa existência de cervejinhas, bermudões e macarrão frio em tupperwares, correndo com rodelas de lingüiça na mão. Iriam pro céu falar alto e ouvir forró no último volume com o Jodinélson. Iriam para o céu fazer cara feia e falar “ai, que saco de música”, “ê, anjada metida!”, “não tem nada mais novo aí não, ô?” quando o arcanjo Gabriel mandasse o coral celeste cantar o “Qui Habitat”. Iriam para o céu reclamar das togas brancas, querendo as deles decoradas com coqueiros, mulheres de biquíni e slogans do tipo “Depois de Salvador, só o céu”, ou “Apesar da marvada, eu sou bom”. Iriam para o céu porque são feios, burros e malcriados, mas puros de coração.
Foi aí que eu vi que esse negócio de céu não dá certo. E se o céu não dá certo, como Deus dará? Daí fiquei atéia. Muito mais simples que o Paulo Francis, muito mais efetiva, e muito mais cheia de razão. E me bronzeando, o que é melhor.