12
Fev
07

Socially atheist

Paulo Francis disse que se tornou ateu filosofando num estribo de bonde. Entre os chacoalhões – bonde chacoalhava, né? – e os schifazfavoire do trocador portuga, o jovem Heilborn sopesava Santo Agostinho e Heidelberg, Calvino e Marx, e se convertia ao ateísmo. Sempre achei isso muito bonito. E muito coisa de homem. Eu, se num estribo de bonde – que é aberto, venta muito -, só daria atenção ao meu penteado, nunca a Deus.

Fiquei atéia em condições muito menos românticas. Foi em Ubatuba, vendo uns farofeiros. Eles estavam lá, barrigudos, com bermudas e biquínis e chinelos extravagantes, bebendo latinhas de cerveja, falando alto, com um ghetto blaster explodindo um forró e comendo macarrão frio em tupperwares. Uma menininha corria para lá e para cá com uma rodela de lingüiça na mão. Um rapaz tinha mechas loiras nos cabelos pretos e usava óculos escuros. Um deles se chamava Jodinélson. Inofensivos, só queriam tirar um barato, como se diz. Iriam pro céu, continuar por lá essa existência de cervejinhas, bermudões e macarrão frio em tupperwares, correndo com rodelas de lingüiça na mão. Iriam pro céu falar alto e ouvir forró no último volume com o Jodinélson. Iriam para o céu fazer cara feia e falar “ai, que saco de música”, “ê, anjada metida!”, “não tem nada mais novo aí não, ô?” quando o arcanjo Gabriel mandasse o coral celeste cantar o “Qui Habitat”. Iriam para o céu reclamar das togas brancas, querendo as deles decoradas com coqueiros, mulheres de biquíni e slogans do tipo “Depois de Salvador, só o céu”, ou “Apesar da marvada, eu sou bom”. Iriam para o céu porque são feios, burros e malcriados, mas puros de coração.

Foi aí que eu vi que esse negócio de céu não dá certo. E se o céu não dá certo, como Deus dará? Daí fiquei atéia. Muito mais simples que o Paulo Francis, muito mais efetiva, e muito mais cheia de razão. E me bronzeando, o que é melhor.


7 Respostas para “Socially atheist”


  1. Fevereiro 12, 2007 às 6:55 pm

    “Iriam pro céu falar alto e ouvir forró no último volume (…)”. Isso não daria mesmo certo.

  2. Fevereiro 12, 2007 às 7:33 pm

    eu estava na quinta ou sexta série, acho. nunca tinha ficado de recuperação, mas uma nota baixa em química prometia fuder meu natal. criado em família católica, prometi à nossa senhora que caso eu não ficasse de recuperação (veja bem, não era nem reprovar de ano, era só recuperação) eu acompanharia o círio de nazaré (romaria religiosa da minha distante belém) no ano seguinte.

    tirei uma nota alta, não fiquei de recuperação. não cumpri a promessa de acompanhar a romaria, minha mãe não gostou. como nenhum anjo desceu dos céus de espada flamejante em mãos a fim de me aplicar um castigo, virei ateu.

  3. Fevereiro 13, 2007 às 12:35 am

    Eu conheço Belém do Pará, Doda, e sei que o ateísmo aí é como a bichice em Bagé: flagelação e coragem pessoal. Te admiro.

  4. 4 jorge nobre
    Fevereiro 15, 2007 às 10:03 am

    É sempre bom falar do Francis.

    Essa tal de química, assim como a física, são uma prova da inexistência de Deus. Um criador do universo não criaria tanta chatice para explicar porque o universo funciona.

  5. Fevereiro 23, 2007 às 6:34 pm

    Andei no carrão do Paulo Francis em 1971, na saída do Pasquim, quando ambos éramos bebês de peito e ele já era cheio de nove horas. Nunca soube que fosse ateu. Sou católica de formação. Estudei para ser professora de inglês. Minha professora de literatura 001 de cara disse que sem conhecimento da Bíblia não dá pra estudar literatura do inglês. Achei que era um exagero; é verdade. De Blake a Faulkner, a Bíblia tá lá.
    Silvia, primeiro marido é assim mesmo. Não se graúna em cima de ex- .

  6. Fevereiro 25, 2007 às 1:42 am

    Ó Tina, carrão do Francis na Clarice Índio do Brasil, circa 69? Não daria tempo de eu estar lá, sou de 72, mas caramuru, caramuru. Do que sou forçada a deduzir um parentesco seu com o Hélio, acertei? Bem, eu sou uma moça iludida, ou quem sabe copio a Madonna e acho que todos são o primeiro. :)

    Pois é, Jorge. Isso para não falar em lingüística, e em Félix Guattari. Deus não permitiria Félix Guattari, se existisse.

  7. 7 Edu
    Março 2, 2007 às 3:35 am

    Ei Doda,
    Lembre-se qua na vida tão importante quanto se ter dinheiro é ter crédito. E crédito é uma coisa que se conquista. Pode não ter descido nenhum anjo te cobrar mas talvez vc pode ter fechado uma porta, e talvez pra sempre.
    Tens certeza que tu nunca mais vais precisar?
    hehehehehe
    Abraço
    Edu


Deixe um comentário