Começo explicando que chiquismo não é coisa de gente chique; é coisa de quem gosta do Chico. O Chico sem mais delongas todos sabem quem é, não? O Chico. B. de H. Ele.
Pois vos conto que neste meu sumiço descobri que há gente muito culta em chiquismo. Gente que nunca leu o Dom Quixote, nem as Ilusões Perdidas, nem o Crime e Castigo ou o Dom Casmurro, mas que tem o songbook do C. B. de H. de cor na cabeça, que recita letra inteira de primeira e depois apresenta detalhado estudo sociológico, rigorosamente contextualizado.
Fico impressionada. Conheço, do Chico, aquelas duas ou três assim mais ou menos que todo mundo assovia, sabem como é? A da Geni, a da banda a passar, mais uma ou duas. Eu acho que é Chico o bastante, mas isso, claro, me coloca como uma perfeita iletrada no âmbito chiquista.
O caso é que até tentei ouvir mais, saber mais; experimentei aquela d’”o meu pai era baiano, meu avô era baiano, todo mundo era baiano, inclusive eu sou baiano”, e dormi no meio. Tentei o Apesar de você, mas, sem perceber, fui para a cozinha antes do refrão – fui comer Nutella – e acabei não reouvindo.
E nunca consegui gostar daquelas músicas sobre mulheres que são chifradas por maridos bêbados e putanheiros e ficam lá, muito adultas, muito cheias de amor, esperando o cara voltar para, entre uma surra e um choro, fazer um chá e passar uma pomadinha no pinto dele. E nunca entendi que a mulherada gostasse, que se sentisse compreendida. Deve ser o tal do progressismo: quem me compreende sabe que não apanho de homem, nem sustento nenhum – bato e sou sustentada. Sou é muito conservadora.