Moralmente, eu me encaixo entre o metrô e a Anac. Quer dizer, do lado mais cínico e improdutivo do país. Deus sabe portanto que não mereço, mas, como a moda é revendicar, revendico meu direito de me abismar um tantinho.
Antes, deixa eu dizer que uma das coisas que me amolaram ultimamente foi ver que os jornais, as rádios, os blogues, os ascensoristas e os garis, todo mundo, to-do mun-do!, quando ia falar na teúda do Renan dizia: “a jornalista Mônica Veloso”. Sempre, antes do nome da mulher, vinha (e continua vindo, né?) “a jornalista”.
Chata essa insistência. Cheguei a ficar com medo de associar automaticamente o nome dela à profissão. Se tivesse que falar da Sônia Racy, diria: “a jornalista Monica Veloso Sônia Racy disse que…” E se ela fosse, para não fugir do mundo burocrático, amanuense? Sei que não tem mais, agora é escrevente ou auxiliar de escritório, mas adoro a palavra: amanuense. Imaginem jornais, revistas, blogues: “A amanuense Mônica Veloso…”.
Agora meu marido mais velho veio me falar que ela, como outras teúdas de disfarce menos nobre, “estuda proposta” da Playboy. Além de jornalista, agora pelada. Será que a imprensa vai mudar? Vão começar a escrever “a jornalista pelada Monica Veloso afirmou…”?
Aliás, que delícia “estudar proposta” da Playboy. “Propomos fotografá-la pelada, madame, por xcentos mil reais”, é tudo o que posso imaginar de objetivamente proponível; e ela lá, estudando a frase. “O que exatamente querem dizer com ‘fotografar’? E com ‘madame’?”, etc.
Se fosse eu o Renan, não deixava. Primeiro que baiano se ofende muito quando vêem as coisas de mulher dele. Segundo, já escancararam os carros que os políticos dirigem, as casas onde moram, os uísques que bebem, os bancos onde moqueiam: vão agora arreganhar quem comem? Isto ainda vira baderna. É com isso que eu me abismo.
E eu aqui, sem nem um vereadorzinho mixuruca. Que digo, vereador? Nem um membro de um Conseg. A inveja vai me matar qualquer década dessas.